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Blog by Dani
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sexta-feira, 17 de março de 2006
![]() imagem: Istockphoto Aqui em Vitória tem os jornais A Tribuna e A Gazeta. Esses jornais publicam - como a maioria dos jornais do país, creio eu - anúncios de garotas e garotas de programa no caderno de Classificados com os títulos "Acompanhantes" e "Recados", respectivamente. Vejam alguns da edição de ontem (16-03-2006) de a Tribuna, de um total de 245 anúncios publicados (algumas palavras abreviadas no original eu transcrevi por extenso para melhor leitura, e omiti o final dos telefones):
RENATA CASADA COMPLETA Insaciável Rapidinha R$15,00 Vila Velha 3229-****. Transcrevi esses classificados para tecer algumas considerações sobre esse fenômeno tipicamente moderno, eu que nem sou sociólogo, mas gosto de me debruçar sobre a bancada de um mirante na montanha e sobre realidade das coisas. Primeiro, um detalhe de menor importância: reparem na criatividade do merchandising: "seios durinhos furando a blusa" haha show de bola. Reparem ainda como certas condições sociais da mulher produzem um efeito atrativo, pois foram explicitadas nos anúncios: mulher casada, professora de ginástica, moça de família, estudante de Direito etc. Pois é. A prostituição sempre existiu na saciedade humana, digo, na sociedade humana. Dizem até que é a profissão mais antiga da humanidade. O que causa certa perplexidade é o recente e vertiginoso crescimento dessa velha profissão e a diversidade e a naturalidade com que ela bem se desenvolvendo. Eu atribuo isso a três fatores, dois pontos. Primeiro. Como essa profissão sempre esteve vinculada às classes mais pobres (embora prostitutas e prostitutos de luxo sempre existiram) - o que é natural, pois o corpo geralmente é único bem que a pobreza tem para vender e tal venda sempre foi dura e moralmente condenada pelas classes mais abastadas - e considerando que uma leva cada vez maior de garotas e garotos de programa são hoje provenientes das classes médias, creio que o fenômeno denuncia um empobrecimento dessas classes em ração, digo, em razão da falta de oportunidades de empregos e de renda. Moça de família também precisa se alimentar e pagar as contas. Visto assim, não é a prosituição que está tomando conta das meninas e rapazes da classe média, mas a classe média que está sendo arrastada para a prostituição para manter seu padrão de consumo e até mesmo a própria sobrevivência. Ponto dois. O Capitalismo reduziu todas as relações humanas a uma ralação, digo, a uma relação comercial. Reparem como o corpo é vendido. À hora. Como toda mercadoria, as relações humanas também tiverem seu preço estabelecido pelo tempo de trabalho investido, e assim aconteceu também com o sexo. Trabalho humano medido pelo tempo. Em outras palavras, ou melhor, nas palavras de nosso amigo Karl Marx, "a burguesia rasgou o véu de emocionante sentimentalismo que cobria as relações familiares e reduziu-as a simples relações de dinheiro". O ponto dois só foi possível pelo ponto três: o controle humano sobre a relação sexual tanto no tocante às consequências mais imediatas como gravidez, doenças sexualmente transmissíveis, ereção etc. quanto às exigências indiretas tais como anonimato, facilidade e privacidade de comunicação, locais próprios para os atos sexuais etc (leia-se motéis, inferninhos...). Tais condições foram exemplaramente fornecidas pela era moderna (leia-se Capitalismo): o avanço da ciência garantiu o domínio sobre o sexo (nunca a expressão "lavou tá novo" adquiriu tanto realismo em toda a história da civilização humana), sobre a sexualidade, a paternidade (exames de DNA) etc., e o ambiente urbano e a tecnologia asseguraram o resto (leia-se camas bem protegidas de olhares curiosos). Tudo isso derrubou em poucas décadas o que a religião, o moralismo e o Estado levaram séculos para construir e manter de pé. "Foda-se!", diria um mendigo.
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Não falo de mim,
nos cartões abaixo para ver os diálogos. imagens: Kim Anderson textos: kali
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