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Blog by Dani
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2005
Desculpem o atraso. Vamos ao final da história antes de o ano acabar e eu assumir novas promessas sem cumprir as anteriores. Marcos aceitou o convite de Marina para ir ao culto na Igreja dela, que ficava em Itararé. Ele tinha formação católica, mas com as leituras de sociologia na faculdade já via a religião com olhos materialistas, como Marx, como ópio do povo, e já via alienação na fé das pessoas. "Quem acredita em religião pode acreditar em qualquer coisa", chegou a dizer uma vez para Luis, numa conversa. Mas não seria por isso que deixaria de ir com Marina ao culto. Se Marina via Jesus como o Cordeiro de Deus, ele a via como uma graciosa cabritinha. - E então? Você vai, Marcos? - Vou sim, Marina! Não é em Itararé? Vou sim. De frente ou de ré! E foi. Sentou ao lado de Marina e ficou ouvindo a pregação do pastor em meio aos sonhos de tomar Marina nos braços e beijá-la até o fim da vida. Tudo ia celestialmente bem até lá pelo final do culto. Todos de pé. Sendo Marcos facilmente identificado como visitante por causa do reduzido número de fiés presentes, todos conhecidos, o pastor começou a convocar "aqueles" que ainda não haviam aceitado Jesus em seu coração para fazê-lo naquela hora, ajoelhando-se e, assim, coptar mais um fiel para a igreja, uma ovelha a mais para o rebanho do Senhor, como dizem. Deixar isso para depois poderia ser tarde demais, pois Jesus voltará sem avisar, como um ladrão, e ai de quem não estiver preparado. Marcos manteve-se impassível. Ele nem podia dizer que já era católico, que não precisava aceitar Jesus outra vez, que era batizado, crismado, essas coisas. Não, não atenderia àquele chamado. Nem Deus nem o Diabo o fariam se mover daí. O pastor insistindo. O pastor ficando vermelho por não conseguir fazer a palavra do Senhor tocar um coração endurecido pelas coisas do mundo. E Marcos, nada. E o pastor subindo cada vez mais o tom de voz. E das ameaças, ou mesmo acusações. "Quem não entrega seu coração a Jesus é porque quer entregá-lo ao diabo!". E por aí foi, até desistir. "Fraquinho esse representante de Deus. Não conseguiu me salvar do capeta", riu por dentro Marcos, com a cabeça baixa, não sem sentir um certo constragimento em relação a Marina. Mas ela não demonstrou qualquer melindre depois do culto. "Você está linda com esse vestido de ver Deus, Marina!", disse Marcos pra descontrair. Marcos acompanhou Marina até a casa de seus parentes. A companhia dela o deixava leve como ela. Na volta para casa, a frase "sou namorada de Jesus" voltava à mente, em meios aos beijos platônicos que dava na fina e fluida imagem de Marina. Tiveram alguns encontros antes da volta dela para Minas Gerais. Mas nada que se tranformasse no encontro de corpos e almas que ele tanto queria e desejava. Um deles foi na Praia da Costa. - We are on the sand. - Mas por que está dizendo isso, Marina?, perguntou rindo Marcos. - Estou praticando o Inglês que aprendo na escola em Coronel Fabriciano. Areia em Inglês é "sand". Você sabe Inglês? - Um pouco. Legal você dizer uma frase em inglês pra mim, ainda mais me incluindo nela. E você sabe como se fala "um homem e uma mulher rolando abraçados na areia" em Inglês? - Não!!! Como é? - "Sandice", disse Marcos com sotaque americano, rindo até não poder mais. - Besta! hahahaha. Chegou o dia de Marina ir embora. Marcos foi se despedir dela e da irmã na estação da Vale. Sentiu por dentro um aperto muito maior que seu semblante sereno indicava. Marina estava bem mais descontraída, embora algumas vezes Marcos percebesse um certo abatimento naqueles olhos tão vivos e uma certa cadência naquele corpo tão ágil e gracioso. Foi a última vez que Marcos os viram. - E aí, Marquinhos! E a cabritinha?, perguntou irônico Luis, no mesmo campo de futebol. - Rapaz! Deu jogo não! - Por quê? - Meu rival era muito forte!, respondeu sorrindo Marquinhos, matando no peito a bola que Luis mandou forte. O peito, contraído, constrangido, nem sentiu o baque.
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Não falo de mim,
nos cartões abaixo para ver os diálogos. imagens: Kim Anderson textos: kali
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