OS OUVIDOS DO MOÇO por kali
Era uma vez uma mulher
que aprendera o que dizer,
mas num idioma
que a ninguém foi dado conhecer.
Assim, não conseguia fazer-se entender
em nada do que tentava dizer.
Em desespero, saiu pelas ruas
suplicando num estranho exprimir
que alguém pudesse discernir
o que de seu peito sua voz fazia sair.
Mas ninguém a entendia.
Até que um dia,
perto de uma baía,
encontrou um moço
que respondia a tudo o que ela dizia.
"Como podes me compreender
se a língua em que eu falo
a ninguém foi dado o halo
de nem um talo conhecer?"
O moço então respondeu:
"Pois toda mulher por duas línguas fala.
A da boca, de onde vem sua voz
e a dos olhos, que vem logo após.
Nem sempre dizem o mesmo,
mas em ti as percebi andando juntas, não a esmo.
E se nada entendiam meus ouvidos
o que teus lábios falavam,
Era para teus olhos que meus olhos olhavam.
Vi que falavas de secura
quanto teus olhos secavam,
de luz, quando eles brilhavam
e de chuvas, quando eles choravam.
Vi que falavas dos teus erros
quando eles se fechavam.
E, mais do que tudo, vi que eram sobre teus sonhos
o que teus lábios falavam,
quando fitando um ponto no ar
teus olhos estáticos, de êxtase já não piscavam".
Só mais um. Pequininim
A GAROTA E O POETA por kali
Uma menina, ao encontrar um poeta, lhe falou:
"Como é belo o dom de transformar palavras em ternura."
O poeta respondeu:
"Menina, não te enganes com um poeta.
Ele trocaria por uma simple música toda sua compositura
Só para ser um peixe e fazer borbulhas,
Só para bordar de corais a tua cintura."