Eu costumava visitar outros blogs e fazer poemas com os posts que me tocavam. Hoje isso é quase impossível, em razão do tempo. Mas gostaria de repetir aqui dois dos vários poemas que fiz dessa maneira. No caso, ambos foram feitos sobre posts de um mesmo blog, de uma moça que assinava Silêncio. Nunca a conheci, e seu blog, hoje abandonado, ainda traz seu último post, dia 03 de abril de 2003, há mais de um ano, portanto. Mas em 6 de novembro de 2002, ela escrevia:
"Sou filha caçula, única mulher, temporona. Tive tudo para ser mimada, mas acho que quando nasci meus pais já não queriam filhos. Nem sei se ainda queriam um ao outro, duvido muito. Cresci assim, meio isolada dos irmãos, dos pais, dos colegas da escola. Sentia que não pertencia a lugar algum. Muito nova para os irmãos, muito madura para os colegas de classe.
Quando contei minha história de vida para a primeira terapeuta que consultei, a resposta veio rápida. Tinha tudo para ter enlouquecido. "Alguma coisa te salvou, ainda não sei o que foi, mas podemos descobrir, se quiser".
Eu já sabia. Sabia desde o início da minha vida que meus maiores amigos seriam meus escritos. Aqueles pequenos papéis que eu carregava de um lado para o outro. Folhas onde meu sofrimento era expurgado.
Contava tudo a elas... como uma forma de contar a alguém. E os papéis me ouviam atentamente, registravam minha dor em tinta de caneta.
Quando comecei minha análise com meu terapeuta atual, ele perguntou se eu já havia sido violentada. Disse que sim. Um dia, meu pai, em um pico de ódio, leu meus papéis, um a um. Aquilo foi um estupro. Antes ele tivesse me violentado sexualmente.
Ler o que se passava no mais íntimo de mim era o que de pior poderia me acontecer. Fiquei doente, vomitei dias a fio. Pensar que alguém havia me corrompido tão violentamente me dava náuseas.
A partir daquele dia, meu pai, que era a única pessoa que eu amava sem amarras, se foi. Foi jogado na vala dos comuns, dos bárbaros que me oprimiam dia após dia.
Passei a escrever mais. Quase não falava.
A escrita é minha redenção e meu vício. Hoje não consigo deixar de escrever, nem que seja por um dia. Se algo me acontece, sou tomada por uma necessidade física de escrever. Uma espécie de náusea que só cessa quando a folha está completa. A sensação se assemelha a um enjôo intenso, desses típicos dos dias em que bebemos demais. Aqueles que só passam quando a bebida traduz-se em vômito. É minha maneira de digerir o que sinto."
No dia seguinte, 7 de novembro de 2002, eu li o post acima e escrevi isso:
TINTA D´ALMA
por Kali
Escrevia visceralmente,
como quem vomitava.
redigia com as entranhas.
queria expor o que havia por dentro
por sentir-se estranha.
Em silêncio,
na surdez de um grito sufocado
na garganta de quem se esgana.
Sua caneta sem tinta
deixando ora um rastro de mel
ora um traço de fel
denunciava um milagre do céu:
sua alma escorrendo
Para um pedaço de papel.
A recompensa veio no mesmo dia 7:
"Hoje é um dia maravilhoso. Tenho renovada a minha ânsia em conhecer o mundo. Não o mundo factível, palpável, mas o mundo das pessoas. A alma dos outros. Essa realidade suspensa, existente em cada um de nós e em todos ao mesmo tempo. Acho que a alma dos outros é a outra metade do mundo.
Coloco aqui um poema que me dedicaram nessa tarde. Sinto-me imensamente emocionada, Kali. Vc é muito, muito, lindo."
E reproduziu em seu blog o poema que eu fiz, além de indicar meu blog para "quem quiser mais um pouquinho dessa alma linda". Claro que eu fiquei emocionado com a homenagem e o carinho de Silêncio.
Mas como não bastasse, em 12 de dezembro daquele ano, entro no Íntimo de Silêncio (Íntimo era o nome do blog) e me deparo com esse maravilhoso poema:
Paixão
Não quero assim, um amor ralo
Sorrisos e café da manhã
Quero o grito que se esconde quando calo
Fechar os olhos sem pensar no amanhã.
Quero a foice que afaga enquanto lanha
A carne exposta, o corpo mutilado, sua entranha
Quero a vida colorida em tons de púrpura
Sua boca para sempre minha clausura.
Quero o ventre corrompido com teu gozo
Nossos corpos nesse sexo tão exposto
E que no mundo, minha única saída
Seja amar-te até o fim da minha vida.
A resposta veio nesse poema, que é um dos que mais gosto, de todos os que já fiz:
IMAGEM PERDIDA
Kali
Desejava seu ventre corrompido pelo gozo
Seus corpos nesse sexo tão exposto.
Amá-lo até o fim de sua vida
Suas bocas para sempre em clausura.
Sua única saída.
E tanto desejou que
a imagem então se aproximou
E, num ímpeto, ao encontro dela se arremessou.
Nem os estilhaços do espelho,
Nem o sangue em vermelho
Lhe fez compreender
Que foi tanto o amor que se verteu
Que nela já não estava mais seu eu
Que aquele corpo no espelho era mesmo o seu
Não o corpo ao encontro do qual se arremeteu
Não o corpo do desejo que a ensandeceu
E o que restou além dos estilhaços
Foi uma lágrima em meio ao sangue
chorando a imagem que se perdeu.
Kali.
Gostou, assine.
Não falo de mim, mas do mundo, bem mais importante e interessante. Quiçá, mais bonito :Þ