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Blog by Dani
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quinta-feira, 25 de março de 2004 Um conto Sinceramente, não me considero bom em contos. Mas isso não tem nada a ver com a vontade de escreve-los. Então, espero um desconto. Aqui vai um, feito à mão, agora. Agora não, daqui a pouco. Seja o que Deus quiser. Não, não. Fosse o que Deus quisesse, sairia bem melhor, claro.
A COLEGUINHA DE CURSO by Kali Ele não conseguia lembrar-se muito bem de quando é que aquela garota insossa começou a lhe despertar o interesse. Até então ela não havia chamado a atenção dele para nada de especial nela. E não era por causa do lugar que ela sentava-se na sala de aula, sempre à margem. A única certeza que tinha era que, mesmo se sentasse ao seu lado, apenas viraria o rosto, e mal, para pegar uma caneta emprestado ou perguntar alguma coisa que lhe tivesse escapado do profess por estar prestando atenção em outra colega. Talvez tudo tivesse partido de um relance, breve o suficiente para perceber a graça da voz e dos gestos, que a correria do curso não lhe davam o tempo e o prazer de observar mais detidamente. Coisas, segundo ele mesmo, mais fundamentais que o próprio Direito. O fato é que agora já estava totalmente absorvido e encantado por aquela menina. A forma meio tímida como ela gesticulava, suas risadas, seus traços, sua graça. Tudo nela era agora, para ele, especial. Tanto que nem se preocupava mais em saber mesmo como ocorreu a reviravolta. O que importava? O encantamento que ela produzia lhe bastava por si só. Não demoraram os primeiros poemas.
Quando te olhava, não te via, E por aí afora. Coisas do coração. E quem um dia irá dizer que existe mesmo razão? Mas tudo começou a mudar quando um dos poemas foi esquecido em cima de uma carteira. Ele até nem daria muita importância ao esquecer do poema se ela não tivesse dado tanta importância ao poema esquecido. A reverência não batia com a negligência. Tudo bem. De qualquer forma, isso não provocou maiores revoluções na imagem que ele fez dela e cujo filme todo dia revelava em sua alma, pois, pelas poesias que fazia, parece que tinha um estúdio lá dentro. Mas alguma coisa mudou, com certeza. A importância que ele dava aos seus poemas era diretamente proporcional à importância que ele dava a quem os dedicava. Outro fato que o deixou magoado foi um olhar de cumplicidade e de ironia trocado entre ela e um outro colega da turma sobre uma coisa que ele havia dito. Viu nisso uma falta de consideração e achou que tivesse mesmo dito uma coisa ridícula e se sentiu humilhado. Quem iria dizer que não? Num outro dia, ao final de uma aula, percebeu dois colegas confidenciando alguma coisa a respeito dela. Sabia que era dela que falavam porque conversavam olhando e apontando discretamente para a própria, que estava logo à frente, trocando olhares um com outro. Combinavam alguma coisa na noite seguinte. Foi o máximo que conseguiu captar da conversa, mas o suficiente para tirar suas conclusões. O desfecho dessa atração veio logo uns dias depois. A turma reunida, discutindo sobre a formatura. Ele pediu a palavra e deu algumas idéias das quais ela discordou. Para desautorizar as propostas dele, ela finalizou sua falação da seguinte maneira: – Ele não está a fim de colaborar! Individualista a gente conhece de longe. A resposta veio calma e discreta. Sob a vista de todos, ele saiu de seu lugar, foi onde ela estava e lhe falou baixinho, protegendo com as mãos o espaço entre sua boca e o ouvido dela, para ninguém mais ouvir: – Putinha a gente também conhece de longe. Acabava definitivamente ali a veneração pela menina insossa de olhos meigos, agora estatelados. Voltou a vê-la dias depois. Segundo ele, de novo com os olhos da cara, não mais com os da alma.
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Não falo de mim,
nos cartões abaixo para ver os diálogos. imagens: Kim Anderson textos: kali
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